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20/12/2019

Espiões do Clima

O regime de chuvas tem mudado de forma preocupante nos últimos anos. À percepção dos produtores de que "não chove mais como antigamente", comprovada pela queda nos índices de pluviosidade em várias regiões do país, se somam queixas de que as chuvas começam cada vez mais tarde. Não bastasse isso, as temperaturas que começam a subir com a chegada da primavera agravam os efeitos da estiagem que teima em não findar em boa parte do Brasil Central, agravada pelos veranicos, cada vez mais comuns. Na tentativa de se precaver - quando possível - das agruras do clima e programar melhor operações como irrigação, adubação e plantio, muitos produtores estão recorrendo às estações meteorológicas. Mas será que o investimento compensa? Em que circunstâncias ele se justifica? Quais parâmetros são mensurados por esses equipamentos? Como a leitura dos dados pode auxiliar no dia a dia da fazenda?

Para Adilson Aguiar, professor da Fazu (Faculdades Associadas de Uberaba), a decisão de colocar uma estação meteorológica na propriedade deve considerar o sistema de produção e o tipo de volumoso produzido dentro da propriedade. "Os dados coletados por ela são importantes, sobretudo o manejo da irrigação. Portanto, recomendo sua compra em duas situações: quando se irriga pastagens e quando se produz silagem, feno ou pré-secados, mesmo que em sequeiro", afirma. "É fundamental ter previsão de chuvas para definir o momento correto de colheita desses volumosos, especialmente no caso do feno e do pré-secado, que precisam ser desidratados ao sol".

Vale ressaltar que a estação meteorológica sozinha não faz previsão do tempo. Para isso, ela precisa estar associada a um programa específico e conectada com um satélite. O mais comum é que o fabricante do equipamento ou empresas especializadas no manejo da irrigação incluam esse serviço no pacote. Para Aguiar, o acompanhamento técnico é imprescindível. "Somente a estação meteorológica não dá suporte ao manejo de irrigação. Recomendo aos produtores irrigantes que contratem o serviço de empresas especializadas, que montam estações próprias, com softwares específicos, nas fazendas e treinam a equipe. Além disso, utilizam imagens fornecidas por satélite para determinar a lâmina de irrigação", afirma.

Com o histórico dos dados climáticos é possível, por exemplo, fazer o planejamento forrageiro. "O profissional que atende o produtor também pode predizer o potencial de produção de forragem por meio de modelos matemáticos, associando os dados de precipitação com os de temperatura, para sistemas de sequeiro, e o uso do balanço hídrico para predizer o potencial de sistemas irrigados", afirma Aguiar. Existem diferentes modelos de estações meteorológicas, desde as mais simples, que medem temperatura média, máxima e mínima, além do índice pluviométrico, até as que registram dados de evapotranspiração, pressão atmosférica, velocidade e direção do vento e umidade e temperatura do solo por meio de sensores. Os custos também são bastante distintos, variando de R$ 700 a R$ 90.000, dependendo do fabricante.

SERVIÇO TERCEIRIZADO

O produtor, no entanto, não precisa necessariamente adquirir uma estação para ter acesso a dados climáticos da sua região. Previsões podem ser consultadas por meio de sites como o do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cpetec), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ou do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Com base nessas previsões, pode-se decidir, por exemplo, quando preparar o solo, aplicar corretivos e adubos, fazer o controle químico de plantas infestantes e aplicar inseticidas biológicos à base de fungos. 

Mesmo para ações específicas, como a irrigação, é possível prescindir do equipamento, obtendo os dados por meio de estações oficiais próximas à propriedade. O Inmet dispõe de 500 estações automatizadas e 258 convencionais espalhadas por todo o País. Existem ainda estações pertencentes a universidades, institutos e empresas de pesquisa, como a Embrapa. Nesse caso, o produtor contrata apenas o suporte técnico. De acordo com Aguiar, o pacote oferecido por empresas especializadas em manejo de irrigação varia de R$60 a R$120/ha/ano.

Esse foi o caminho escolhido pela Fazenda Agroverde, de Jaíba, MG. Há quatro anos a propriedade decidiu contratar os serviços de uma empresa especializada em irrigação. Os dados climáticos são coltados pela estação meteorológica do Projeto de Irrigação Jaíba, iniciativa do governo Médici no início dos anos 1970 que transformou o seco norte mineiro em um polo produtor de frutas. A fazenda fica a 6 km do projeto e se dedica á recria/engorda. Tem 147 ha de pastagens e 30 ha de lavouras irrigadas. "Já monitorávamos os dados climáticos, mas era no 'bico da botina', sem muito critério", reconhece Vilson Jerri Fialho, gerente geral da fazenda. 

Segundo ele, a contratação do serviço teve por objetivo melhorar a eficiência no uso da água e energia e, deste modo, reduzir os custos. "O funcionário que cuida da irrigação coleta diariamente os dados da estação meteorológica que estão disponíveis na internet e joga no aplicativo do celular. Com essas informações, a empresa responsável gera os relatórios e nos informa qual lâmina d'água devemos jogar", afirma. De acordo com Gustavo Carneiro do Amaral, da Alcance Rural, de Montes Claros, MG, que presta assistência ao projeto, a fazenda conseguiu reduzir 30% as contas da energia e da água, esta coletada do Rio São Francisco, ao custo de R$ 0,03/m3. Amaral informa que o produtor pode utilizar os dados de uma estação distante até 20 km de sua fazenda, desde que ela esteja em linha reta e situada na mesma altitude.

CUIDADOS NA IRRIGAÇÃO

Embora seja cada vez mais comum encontrar produtores que tenham estações meteorológicas próprias ou utilizem o serviço de empresas especializadas, o emprego desses equipamentos para auxiliar no manejo da irrigação não é prática regular. O empirismo impera, acarretando problemas que vão do desperdício de água ao custo elevado de energia elétrica, além da lixiviação de nutrientes no solo. "Molhação (jogar um tanto de água na planta e ver se ela responde) é chute. Irrigação é umedecer o solo, levando em conta suas características, o estágio vegetativo da planta e as condições climáticas", afirma.

Para completar o raciocínio, Gustavo Amaral recorre aos conceitos clássicos da irrigação, como o "ponto de murcha permanente", teor de umidade abaixo do qual a planta não consegue mais retirar água do solo, e "capacidade de campo", que é o limite máximo de retenção de água pelo solo, acima do qual ocorrem perdas por percolação de água no perfil ou por escorrimento superficial. "Se a lâmina de água for inferior ao necessário, a planta diminuirá sua produtividade. Por outro lado, se ocorrer saturação do solo e depois chover, desperdiça-se água".

Segundo o consultor, há particularidades no caso das pastagens que o produtor deve observar, como o Coeficiente de Cultura (Kc). Esse indicador - variável, conforme a planta e o seu desenvolvimento - determina a quantidade de água a ser irrigada. "Diversos estudos tem mostrado que, se o produtor irrigar a pastagem com 75%, 100% ou 120% da lâmina recomendada, obterá os mesmos resultados, principalmente no caso de capins que tem hábito de crescimento rasteiro, pois cobrem bem o terreno e protegem o solo da perda de umidade", diz.

Para Amaral, além de monitorar o clima de modo a ter na fazenda um histórico de dados climáticos, o produtor também deve estar sempre atento ás condições do solo. "Recomendo que seja feita análise físico-química do solo uma vez por ano, na mesma época". Segundo o consultor, esse monitoramento ajuda a identificar problemas como a lixiviação de nutrientes e até mesmo a alcalinização do solo, mais comum nas fazendas que utilizam água de poços artesianos para irrigação.

Fonte: Revista DBO